domingo, 29 de dezembro de 2013

Picharam o monumento do poeta


Fui pesquisar. Não li as matérias jornalísticas sobre quem maquiou o poeta, que não perco meu tempo, mas consultei as fontes da imaginação. 

Segundo a primeira fonte, o meliante na verdade é um estudioso de poesia que prefere o João Cabral. 

A segunda diz que ele é um amante do Drummond, de grande coração, mas mau poeta, que, deprimido com a própria falta de talento, pichou a poesia e não o itabirano. 

Minha fonte romântica diz que andava bêbado com namorada pela cidade quando o pintor se declarou: "vou mijar na rua pra provar que te amo". "Mijar na rua todo mundo mija, quero ver se você tem coragem de pichar um monumento importante". O do Carlos teve a má sorte de ser o mais próximo.

Nenhuma das versões combina com o ódio que os discípulos do poeta destilaram contra o rapaz.

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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Piadas sempre

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Adoro piadas. Abomino quem as copia, como fez recentemente um poeta de editora importante. Solenemente reproduziu uma piada velhíssima como se fosse poema seu, sem nenhuma indicação da autoria popular. Desrespeitar autoria popular é o plágio mais covarde. Como é criação coletiva, anônima, quem vai reclamar? e tem mais um agravante: o que vai pro livro se congela.

Curioso como os comediantes (ou nem tanto) atuais se aproveitam da mudança das relações entre os gêneros para contar, com a maior cara de pau, como se fossem novas, deles, aquelas piadas mais machistas, que só contávamos no botequim, meio ébrios, escondidos das parceiras.

Duas das melhores piadas que já ouvi são essas que botei neste blogue (clique). As duas de caipiras, lógico. A da comadre, acho que é a única piada verdadeiramente feminista que conheço. Espero que minhas amigas também achem.


Quando era moleque, éramos encafifados sobre quem inventaria as piadas. Houve a crença de que elas nascessem na cadeia. Só "desocupados" poderiam pensar naquela insanidade. Romântica visão da prisão que a gente tinha.

Esses dias recebi essa bem infame do Mussum. Por que a piada inteligente é engraçada a gente sabe facinho. Mas e essas maravilhosas infames? Por que a gente ri tanto? será que a bobeira humana generalizada nos desculpa da própria e nos faz gargalhar? Talvez seja o riso mais autêntico.
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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Cristal quebrado

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A gente vê uma barbárie como aquela do jogo Atlético-PR e Vasco e tem vontade de desistir de gostar de futebol.

Aí vê o espetáculo da torcida que não briga, vê o golaço do craque, vê a comoção e volta.

Mas não volta bem voltado.
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Vórta


Depois de ouvir do Cândido que São Paulo é um destruidor de caipiras, só vou falar "fecha essa puóóórta".

É facinho. É só sortá!
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(clique e veja o Antonio Cândido)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Cavalos

Difícil não gostar de cavalos.

Pra quem conviveu com eles, os escovou ou pintou, e pra quem só os viu. Como não gostar dos olhos enormes, da crina, dos músculos? da cauda caudalosa de fios que sacode no passo? Até na nuca das moças gostamos de rabo de cavalo.

Como não gostar do trote e do galope do baio, do alasão ou do pampa engraçado? quem não vai gostar de cavalos? quem, criança, se não teve, pelo menos não imaginou ter um, até no apartamento? quem não imitou com a língua e o palato o cla-clô cla-clô cla-clô, aqui mal escrito, dos passos de alternância complexa de patas duras?

O bicho do carrocel nem precisava de mais motivo pra ser amado, mas foi escolhido pra tarefa moderna, celestial, da equoterapia. E aquele que pouco tem de corpo sente o resfolegar e o tum-tum do coração do gigante sob si.

Difícil não gostar de cavalos.

Mas por que diabos a polícia tem cavalos?

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terça-feira, 26 de novembro de 2013

Fábula cruel

Houve um artista muito famoso. De obras difíceis até de olhar, inspiradas na crueldade humana. Naquele tempo a arte já incluía o completamente feio.

O famosíssimo artista era fumante compulsivo e tinha um único filho. Nos intervalos da sua arte, tinha o hábito de apagar os cigarros nos pés do menino. O cinzeiro.

O fumante morreu e sua arte permaneceu como das mais importantes da sua época. Tornou-se “pessoa cuja trajetória pessoal, artística ou profissional tenha dimensão pública” (*).

O cinzeiro não teve vida fácil. Os traumas o acompanharam por décadas. Nunca os esqueceu, mas, à custa de muita análise e muito divórcio, botou sua dor em um baú no sótão. Por conta das cicatrizes, não ia à praia e só amava no escuro, mas ia vivendo.

Até que um dia, publicaram sua antiga condição de cinzeiro do pai. Foi uma “divulgação de imagens, escritos e informações com finalidade biográfica” (**). Em um programa de televisão.

À alegação de que o “apagar de cigarros em pezinhos infantis” não tinha finalidade biográfica, respondeu o advogado: “mas é parte indissociável da arte do fumante”.

Alegou-se também que não se tratava de biografia, mas de programa de televisão.  “Se a lei não restringe, não cabe ao intérprete restringir”, rebateu o estudioso e combativo causídico.

Tudo voltou. Tiraram o baú do sótão e não mais bastavam os sapatos e o escuro. De novo o cinzeiro não podia olhar ninguém nos olhos.

Repleto de bitucas, ganhou uma grande indenização por danos morais e pôs formicida Tatu na taça do vinho mais caro que encontrou.

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(*) e (**) – critérios da proposta de alteração do artigo (clique)  de lei de proteção à divulgação de intimidades

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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Sempre outra

Esse cara é assim: todo dia a gente descobre a canção mais bonita que ele já fez.

Sublime.

(até pensei - clique)
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domingo, 6 de outubro de 2013

Arremesso


Esse é o Bar do Arremesso. A placa é nova.

Eu pensava que era por causa da Malha, jogo em que se arremessam discos de ferro pra derrubar um pino e que antigamente se praticava muito nas ruas de terra.

Fui confirmar com o Vaguinho, que é frequentador do bar e grande contador de histórias.

- Nada, o nome é esse por que o dono Ticão é forte e arremessa os bêbados chatos pela porta.

Na sequência de fotos, um antepassado cinematográfico do Ticão, de "O Homem que Matou o Facínora" - John Ford.

Pra falar a verdade, o Ticão é muito gentil e ainda acho que o nome vem do Jogo de Malha.

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Parem





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Epilepsia ou aqueles personagens todos girando na cabeça do mestre? 

Bentinho, Capitu, Bras, Quincas, Simão et caterva, parem de trazer novas possibilidades e deixem o pobre descansar.

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(*) Fotografia de Augusto Malta - Machado de Assis sendo socorrido por amigos após um desmaio causado por suposta crise epilética - Centro
1907


domingo, 29 de setembro de 2013

O rio e a turma


Não, não existe indivíduo. Cada um de nós é uma turminha. E das grandes.

E como se portam todos esses no rio de Heráclito?

"[dizem os cientistas que] O corpo humano contém cerca de 100 trilhões de células, mas apenas 1 em cada10 são células realmente humanas. O resto são de bactérias, vírus e outros microrganismos." Leia aqui


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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Pedaçuda


Muita coisa boa vem de pouca mistura. Pão com manteiga. Café e água, às vezes um pouco de açúcar, mas aí é outra bebida. Peixe e shoyu.  Voz e violão.  Alcachofra e molhinho (óleo, pimenta, sal e vinagre). Frase sem adjetivo ou quase. Fala sem quês. Caymmi. Amor sem explicações.

E tem essa da foto. Uvaias cortadas, fora com intrusos, açúcar e água. É geleia ou doce, não se sabe. É pedaçuda. Vai com queijo branco.

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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Assim

Nós éramos três rapazes, todo mundo com o pai naquela conversa de possibilidades.

- se a menina me dá um tapa, eu dou um nela.

- não, filho, se a moça bate em você, você não bate nela.

Tava dito.
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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Um dia, quem sabe

Entramos juntos no elevador. Era um homem alto, negro, muito bonito. Pediu um andar incerto pra ascensorista:

"Por favor, 24o. O Augusto fica lá, não?"

"Augusto, será que eu sei quem é?... não tenho certeza."

"Um homem da minha idade", titubeou e disse com voz meio escondida, meio apontado pra si mesmo "negrão".

Fosse "altão" ou "careca" diria com firmeza. "Negrão" quem sabe um dia, se tudo correr bem.

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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Presta a atenção, menino.

1-

Dá-lhe, Dona Irmes! 

Quando era criança, minha mãe sempre dizia que "a casa de fulano fica ali perto da Antártica". Era a fábrica da Dubar e meus irmãos mais velhos me corrigiam quando eu repetia, "lá é a Dubar, não é Antártica". Respeitosamente não questionavam a mãe (a gente não fazia essas coisas naquele tempo),"que devia ter feito confusão". 

A Antártica era chique. Do Guaraná. A Dubar, do Fogo Paulista. 

Por causa do Rabuja, fui pesquisar a Dubar e vi que ela foi fundada em 1913 pela Cia Antarctica Paulista.

A mãe tava certa. De novo.


2-

O pai era exagerado. Ou melhor, digamos... enfático!

Não conhecíamos as coisas da cidade grande. Nem elevador, nem avião, nem metrô, nem café de máquina.

"Aquele café é esquisito, não faz fumaça, tem que tomar cuidado senão queima a boca. É café espremido!"

Achava engraçado. "o pai não sabe o que é expresso! é café rápido, que se tira depressa"

Muitos anos depois, por causa da grafia "espresso" de uma publicidade de café italiano, pesquisei e encontrei a origem da palavra. Expresso vem de espremer. Pode ser espremido(*)! Somos Feliciani e o Dorival era uma geração mais próxima da língua do bisavô Horazio.

Tá vendo? Duvida!

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(*) Etimologia

lat. expressus,a,umpart.pas. de exprimĕre 'apertar com força, comprimir, espremer, tirar de, arrancar, reproduzir, representar, verter, traduzir, exprimir, dizer, enunciar claramente, declarar formalmente'; como atributo de tremprov. calcado no fr. express (1849) e, este, por sua vez, no ing. express (train1841), express subst. (1842); ver -prim-f.hist. sXV expresso, sXV expreso

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Vir de lá


Nasceu num cantinho do mundo onde pouco havia de livros e pensadores organizados. Como sempre, só a professora.

Acotovelou a torto e a direito pra botar o nariz pra fora da água da indiferença da cidade grande.

Agora é tolerante e receptivo com aqueles que o bordoaram pra que afundasse e pra lá de rigoroso com os que tentam flutuar como ele conseguiu.

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quinta-feira, 6 de junho de 2013

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Recursos

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Esse pessoal de informática é engraçado (posso rir, pois já fui um).

Além da perigosa correção automática, tem um recurso que é a previsão da próxima palavra. Por exemplo, neste momento, se eu escrevesse "próxima", o sistema botaria "palavra", pois aprendeu a sequência logo acima.

Muito útil praqueles castigos da dona Zuleica:

"Juquinha, não fez a lição de novo? escreva quinhentas vezes: não devo ser preguiçoso".

E o Juquinha, que pode ser folgado, mas é craque de micro, liga o recurso, escreve "não" e já vem "devo", aceita  e vem "ser", aceita de novo e vem "preguiçoso".

Depois é só ir aceitando pra preencher as páginas.


(útil pro Jack do Iluminado também... "muito trabalho sem diversão faz de Jack um bobão").

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PS: claro que "ctrl c" e "ctrl v" é mais fácil. Não estrague minha piada.

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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Da utilidade dos conceitos jurídicos


Dia desses, entre outros avisos assépticos, vi num banheiro masculino: 

“Não urine no chão”

Aí também já é demais!

Por  mais que as moças odeiem nossa má pontaria, arrogante é certo, já que tentada lá de cima, não se trata de delito doloso (aquele cometido com intenção), mas culposo, o tal do "benhê, foi sem querer".

Dentre os culposos, nem mesmo se pode dizer que caracterize imprudência (fazer o que não deve) ou negligência (não fazer o que deve), uma vez que é resultado de clara e desculpável imperícia torta (ops!), já que seria excessivo qualificar a atividade de fazer xixi como profissional.

Se fosse doloso, caberia o “não urine no chão”, na linha do “não matarás”. Como é culposo, vai melhor um “tome cuidado para não urinar no chão”. E um “, meu querido!” logo depois também não iria mal.

Mais afeto e menos bronca com o menino.

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PS pras advogadas: no benefício da dúvida, tá mais pra culpa consciente do que pro dolo eventual.

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segunda-feira, 22 de abril de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

Outra musa do torto

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(Clica na questão: Françoise Hardy)

Bonito. Bonita e sem ortodontia.
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sábado, 16 de março de 2013

Movimentos de enlouquecer

Lucy Liu.

Girei a imagem, era paisagem como se percebe pela nudez, e endireitei pra botar as bases dos olhos na horizontal.

Com essas amêndoas em V aberto, quando a moça olha pra esquerda, o olho esquerdo sobe e o direito desce. E vice-versa.

E as iris sem pupila ficam subindo e descendo e pra cá e pra lá e de quando em quando se aproximam num estrabismo desconcertante pras alturas não se afastarem muito.

Com é linda a assimetria.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Ceticismo



Fui aluno do Prof. Carlos Souza Pinto, dono de uma liberdade de pensamento e uma capacidade de duvidar do que pareça completamente demonstrado, que nunca vi em outra pessoa.

Agora os especialistas dizem que não há nenhuma relação entre a queda de um meteoro, ferindo um monte de gente, e ao mesmo tempo um asteroide passar raspando no planetinha. 

O Prof. Carlos, o verdadeiro cético, diria no laboratório: "será?". 

Eventos astronômicos corriqueiros levam milhares ou milhões de anos pra acontecer, como disse ontem um astrônomo na televisão

Mas que coincidência!

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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Pra garantir que "eu te disse" quando nos analfabetizarmos

O pessoal fica se preocupando se o livro será digital ou não, mas o buraco é mais embaixo.

No andar da carruagem, me parece que o ato de digitar também tem dias contados. Os teclados de tela de tabletes não são nada bons, mas, rapaz, o meu escuta muito bem! Eu digo lá "Rua Bela Cintra" e ele entende.

É mais fácil falar pra ele do que escrever pra ele!

Com o tempo seremos todos analfabetos.

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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A exposição pune a mais

Telejornais não valem a crítica, mas quem foge deles?

As editorias podiam ao menos poupar as pessoas presas do constrangimento de serem filmadas entrando nas delegacias, ou sendo jogadas nos camburões, ou expostas em filas de algemados, ou sendo obrigadas a comentar alguma coisa. 

É ainda pior do que o embaraço dos que sofreram nas tragédias, pois esses têm a dignidade dos atingidos por aquilo que o destino tem de implacável. Já os presos estão derrotados por si mesmos, por seu próprio tropeço.

Quem não considera a exposição uma desumanidade nunca olhou nos olhos dos capturados (sim, eles os têm!).

Senhores jornalistas, se não for por humanidade, abstenham-se de filmá-los por legalidade. Por mais que vire e revire, não encontro no código a pena de “EXPOSIÇÃO PÚBLICA DO INFORTÚNIO”.


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