Antes de mais nada, é um dos maiores letristas da Música Popular, o que no Brasil não quer dizer pouco.
Mas algumas análises sobre a obra do Rubinato incomodam.
Identificar Édipo em "Trem das Onze" é tão tolo, que basta dizer isso. "Trem das Onze" é uma das canções que mais brasileiros sabem de cor. Em qualquer lugar que você esteja, todo mundo canta. Ara, quem não tem momentos de amor prejudicados pelas obrigações do dia-a-dia?
Há outra análise, menos estreita, que também não compartilho: de que há legalismo no Adoniran.
O conformismo que às vezes vemos nos muitos personagens que ele cria não é legalismo, mas um certo realismo. Assim como o desprovido tem que se conformar com o raio que cai na sua casa em noite de tempestade, ele também se conforma com a pata cruel do estado e da sociedade que derruba seu barraco.
"oh oh oh oh oh meu senhor / é uma ordem superior" (*)
A relativização do direito de propriedade é recente e ainda insuficiente. A injustiça da ordem superior, baseada em conceito estreito de propriedade, é raio estatal que destrói a vida do desprovido.
Na definitiva "Saudosa Maloca", esse realismo é mostrado pela composição dos três personagens. Nela sim tem um legalista, simplista, "os home ta com a razão"; mas tem também um revolucionário, que quer gritar; e um religioso, que é a última palavra, "Deus dá o frio conforme o cobertor". E, nessa última palavra de fé, está a grande construção do realismo do Adoniran: pra maioria dos ferrados a religião é só o que resta.
João Rubinato não faz a música do "dever ser", mas a do "ser". Nos nossos dias, talvez Adoniran contasse sobre os movimentos sociais que existem e obtêm avanços. Seria bom tê-lo hoje como compositor.
(**)
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(*) Despejo na favela
(**) João Rubinato é o nome de Adoniran Barbosa. Uso pra evitar a repetição, truque estreito de escrevinhador barato.
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quarta-feira, 4 de abril de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
Acessibilidade
Dia desses, comparando um original com sua versão publicada, vi que tinham cortado (todos, senhor editor?) os parágrafos de uma linha.
Parágrafo de uma linha serve de corrimão.
Comprido.
Claro que os textos fluidos (há quem os prefira e quem não) são rampas suaves, mas outros são de parágrafos degraus, mais ou menos altos, e os escalam pernas mais ou menos fortes.
É truque bom esse do corrimão. Provê acessibilidade.
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Parágrafo de uma linha serve de corrimão.
Comprido.
Claro que os textos fluidos (há quem os prefira e quem não) são rampas suaves, mas outros são de parágrafos degraus, mais ou menos altos, e os escalam pernas mais ou menos fortes.
É truque bom esse do corrimão. Provê acessibilidade.
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segunda-feira, 12 de março de 2012
Pra que servem as certezas
Acho que ela tinha uns 16:
"Meu gato sumiu.
Minha mãe disse que de duas uma: ou ele foi atropelado e morreu; ou alguém roubou ele, que é bonitinho.
Mas eu tenho ceeerteeeeza que alguém roubou."
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"Meu gato sumiu.
Minha mãe disse que de duas uma: ou ele foi atropelado e morreu; ou alguém roubou ele, que é bonitinho.
Mas eu tenho ceeerteeeeza que alguém roubou."
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Mãezona, mas educadora
Diz que a galinha cerca os pintinhos do máximo de mimos e cuidados. Não é verdade. Ou é meia-verdade, que padece do mal de ser meia-mentira.
Na idade de cobrir com as asas, contra o frio e a chuva, claro que ela cobre. Mas depois ela segue como se estivesse sozinha, faz o que tem que fazer, cisca, pega os vermes e as pedrinhas pra moela. E daí, virou-e-mexeu, os pequeninos ficam lá atrás, no mundo da lua, até que notam a distância e disparam até ela.
"Pééééra, mãe!"
É a educação pelo exemplo.
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Na idade de cobrir com as asas, contra o frio e a chuva, claro que ela cobre. Mas depois ela segue como se estivesse sozinha, faz o que tem que fazer, cisca, pega os vermes e as pedrinhas pra moela. E daí, virou-e-mexeu, os pequeninos ficam lá atrás, no mundo da lua, até que notam a distância e disparam até ela.
"Pééééra, mãe!"
É a educação pelo exemplo.
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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
O mundo dos sonhos (*)
Exceto quando mata a saudade daqueles que de outra forma não vemos mais, quase nunca o sonho é prazeroso.
Pelo menos os meus, sonho tem mania de ser confuso, muito além do limite da folia: começa com uma coisa boa e a interrompe na hora h; mistura situações absurdas; ou nos põe em enrascadas, pelados no lugar errado.
Quase nunca tem o sabor do doce xará, mas ainda assim dizemos coisas como um “sonho de liberdade”, "a casa dos sonhos", “sonho de valsa”.
Pouco importa se, depois da liberdade, vem uma situação de sinuca, ou se as torneiras da casa vertem o que não devem, ou se pisamos no pé da moça. Todas as expressões em que aparece são positivas. Pra falar do negativo não se usa "sonho", a regra; mas o primo mau "pesadelo", a exceção.
É que sonho é esperança, imprevisível como poucas vezes a vida é. Como nele tudo pode acontecer, das formas mais mirabolantes, a felicidade sempre tem uma chance.
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(*) Pra Luciana Garbellini
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Pelo menos os meus, sonho tem mania de ser confuso, muito além do limite da folia: começa com uma coisa boa e a interrompe na hora h; mistura situações absurdas; ou nos põe em enrascadas, pelados no lugar errado.
Quase nunca tem o sabor do doce xará, mas ainda assim dizemos coisas como um “sonho de liberdade”, "a casa dos sonhos", “sonho de valsa”.
Pouco importa se, depois da liberdade, vem uma situação de sinuca, ou se as torneiras da casa vertem o que não devem, ou se pisamos no pé da moça. Todas as expressões em que aparece são positivas. Pra falar do negativo não se usa "sonho", a regra; mas o primo mau "pesadelo", a exceção.
É que sonho é esperança, imprevisível como poucas vezes a vida é. Como nele tudo pode acontecer, das formas mais mirabolantes, a felicidade sempre tem uma chance.
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(*) Pra Luciana Garbellini
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
A primeira manhã do construtor

Esse é o Edifício Martinelli em São Paulo. O colosso da época, dele vê-se até o Pico do Jaraguá.
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Diz que o Conde de mesmo nome fez a própria casa no topo do Martinelli pra provar que não era perigoso ficar no arranha-céu, pioneiro em São Paulo.
Na primeira manhã em que acordou na casa nova, encostou-se no parapeito de camisolão libertário, olhou aquela imensidão toda, balançou a cabeça com um bico de duce e mandou:
- Cazzo! ma que prédio "arrrto" que fiz!
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(*) foto da internet, não sei de quem é
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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
O consertador das sintetizadoras
Bom encontrar o Celso.
Desde os 12, faz 54, conserta corpos e lentes das câmaras
fotográficas. Começou com o pai. Hoje já cuida das digitais, “só as profissionais”, mas ainda as pensa
piores. Bem piores. Não têm profundidade de campo, os grãos são muito grandes e morrem cedo.
“Os 20 anos das antigas, nem pensar.”
A oficina é muito pequena. Olha as lentes com
lentes.
As lentes reduzem o mar, a montanha, a planície, a mulher
bonita, pra caberem nos negativos e agora nos sensores. E, quando essas grandes
redutoras adoecem, deixam por um tempo o mundo vasto e vão se encolher no quartinho e nas
mãos do Celso.
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