sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Hora de trem e de afeto

Talvez por ter sido concessão dos ingleses, na Rede Ferroviária Federal os horários de trem eram quebrados. Se um partisse de Jundiaí às 8 horas, passaria em Campo Limpo Paulista 8:23 e era esse horário exato, não arredondado, o divulgado aos passageiros.

Quando conheci a estrada de ferro, já obsoleta, o comboio atrasava muito e o tal do subúrbio (assim se chamava o trem que não era expresso) passava às 9 e meia, sem cerimônia, "está encostando na plataforma, com destino a São Paulo, o trem das 8:23". Muitos riam.

Os brasileiros temos a fama de atrasados, o que não é verdade para todos. Na minha cidade, pelo menos as pessoas da geração anterior à minha não tinham ainda esse hábito, moderno e displicente, de se fazer esperar.

Emília e Irmes iam sempre juntas ao cemitério. Irmes combinava de pegar a cunhada com seu fusca, na esquina da sua rua com a avenida, às 15 pras 8. Passava às 7 e meia, "senão ela fica lá de pé esperando".

A outra já estava lá desde as 7 e 15, "se eu não estiver lá, onde ela vai parar?".

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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Navegar é exato

Navegar é exato. E tem borrascas, recifes e sereias.

E viver nem exato é.

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nome sujo

Dizem que a crença de que misturar manga com leite é morte certa foi criada para evitar que os escravos, que consumiam muito um dos alimentos, consumissem escondidos também o outro, mais raro e destinado aos senhores. Se era a manga ou o leite o proibido eu não sei, já ouvi as duas versões.

Truque maquiavélico esse de criar uma falsa crença nos pobres pra se esbaldar sozinho nas guloseimas!

Mas há outro. Os da antiga da minha rua, sempre sem dinheiro, diziam que aquele que não paga dívida fica com o nome sujo.

Que expressão cruel: nome sujo!

O nome é um dos orgulhos das pessoas. Um juiz professor de direito me contou uma vez, com olhos marejados, sobre o seu arrependimento por ter seguido a lei com rigor excessivo e não ter dado um sobrenome a um rapaz que não conhecia sua origem. "A gente vê tanta decisão errada, motivada por argumentos injustos. Eu devia ter dado um nome ao menino, mas era muito jovem, cheio das 'leis'".

Em algum momento da nossa história - nem toda tradição é boa - foi criada a expressão nome sujo para apelidar os que devem. Mas a alcunha só pegou nos pobres, assim como a crença nos malefícios da mistura manga com leite.

Nunca se viu rico angustiado por não ter pagado uma ou outra dívida. Deixar pagamentos para depois é parte do dia-a-dia da administração financeira dos que têm dinheiro.

Não pagar contas pode até dificultar o crédito, o que pode ser bom, com os juros criminosos que andam por aí, mas falta de dinheiro e boleto em branco na gaveta não sujam o nome de ninguém.

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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Habilidades III - os apertos


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Procurei. O nome é torquês, que deve ter relação com torque, que é o esforço de torcer, coisa que ela faz mesmo. Pra gente era turquesa. Era mulher. E eu que tinha plena certeza que era só um erro na denominação da nacionalidade da ferramenta! Esses dicionários!

Fazia estágio e me botaram na cola uma francesa recém-chegada. Formada.

Mostrando pra moça como se amarravam as armaduras, aquelas gaiolas de aço que ficam dentro do concreto armado, ouvi seu protesto, em português bem pior do que esse: "mas essa ferramenta é de corte, não serve pra apertar e torcer".

E como eu, surdo-mudo na língua de Obelix, ia lhe contar que já sabia? Que, com pouco aperto, servia pra puxar o arame, aproximar as peças e torcer? E que, com aperto maior, virava instrumento de corte e eliminava-se o excesso sem trocar de ferramenta?

Como contar praquela Falbalá, que nunca tinha pegado uma turquesa, que minha gente sabia usar os apertos certos nas horas certas?

Voltou pra França com a certeza de que, também por não saber usar ferramentas, os brasileiros eram um povo subdesenvolvido.

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(*) Foto: Luciana Garbellini e Mario Rui Feliciani

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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Obsolescência

A analogia é do Nelson Rodrigues, como sempre em uma grande frase:

"Uma das figuras obrigatórias desta coluna é a minha úlcera. Com o tempo, porém, criou-se entre mim e a ferida uma acomodação recíproca e total. Trato-a a pires de leite, como uma gata."

Hoje o gastroenterologista proíbe o leite pra sua úlcera.

E o veterinário, pra sua gata.

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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Método

O problema se põe assim: você tem duas paredes nuas e duas prateleiras, uma pra cada. Quatro mãos francesas, oito buchas e oito parafusos, portanto. Muita chance de pelo menos uma bucha ficar bamba, e dois parafusos por mão francesa não admite fracasso, é tudo ou nada, um solto e a prateleira não funciona.

Respire fundo e não deixe de dormir na véspera.

Se a parede for boa, de blocos fixados com cimento, parte do seu drama não existe.

Se for parede de tijolos assentados com barro, daquelas românticas, desista de cara, compre armários de chão, que a probabilidade de um ou dois dos oito furos acertarem um vão entre tijolos é enorme.

Se bem que paredes dessas quase não há mais. Só no mato.

Não seja afoito, furo em parede exige preliminares. Tenha duas brocas. Assim: se escolher bucha 8, fure primeiro com broca 5 ou 6, com a furadeira na posição de impacto, e só depois com a broca 8, desta vez sem impacto. O pré-furo garante que a bucha se encaixe justa no buraco. Sonho de uma noite de verão, não é? Foi meu pai quem me ensinou e ele sabia das coisas.

Na dúvida sobre a verticalidade ou a horizontalidade de uma reta, afaste-se, pare e olhe com os olhos. Se parece certo, está certo. Se alguma medida está certa, mas parecer errada, está errada. Ele me ensinou isso também.

Você tem duas paredes nuas e duas prateleiras e já conhece o procedimento para fixá-las.

É um bom princípio, mas onde vai colocá-las?

A certeza das posições das duas que faça tudo harmonioso é onde a porca torce o rabo.

Aposto que você vai errar. Pensar, depois de pronto, que 3 centímetros pra lá é que ficava bom.

Sofra sozinho, não conte pra ninguém.

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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Invenção


Não é bom ter as duas mãos ocupadas enquanto se anda.

Em dia de chuva, como alguém que use bengala pode dar sinal pro ônibus, ou acenar pra um amigo, ou coçar o nariz?

Com esse modelo é possível, já pedi patente e, desta vez, engordo a conta bancária.

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