sexta-feira, 12 de março de 2010

Habilidades II - o manobrista

Toda cidade grande, apertada, tem desses estacionamentos estreitos e compridos em que os carros ficam alinhados em três ou quatro fileiras muito longas.

A única ajuda que o manobrista recebe é uma dica sobre o tempo que o carro vai permanecer: “cerca de uma hora”; ou “devo demorar, sabe como são as filas do banco”; ou “só saio no fim do expediente, ainda bem que hoje é sexta”.

Vai ajeitando os carros como dá, imagina-se que com alguma intuição baseada nessas indicações vagas, mas sempre presos uns pelos outros.

A mágica é no momento da retirada.

Aquele que ia demorar sempre volta antes e seu carro está encravado três automóveis pra trás e dois pro lado. Já acha que não vai sair nunca, mas o manobrista move um ("por que esse que não tem nada a ver com o meu?"), move outro e, ao mover o terceiro, libera o veículo desejado, que já pode ser dirigido pelo freguês aliviado.

Campeão daquele jogo em que a gente tem que mover o mínimo de peças da frente pra soltar a do fundo.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Cavalheiro da alegria

Tem só duas estrofes.(*)

Não é namorado, nem dançou com a moça ainda. Tá de chaveco, vai levá-la pra casa, deixar no portão e esperar "aquele beijo ao qual eu faço jus". Só por desejar, já faz jus.

Espera entrar, acender a luz da cozinha, apagar e abrir a janela do quarto, "boa noite, zé, té manhã se deus quiser".

Não há perigo, nenhum bandido escondido. Já pode ir embora com gosto de beijo. "Tá tudo legal" com ela.

O que tá legal coa gente é pruque cê dexô assim, João Rubinato.

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(*) Fica mais um pouco, amor - Adoniran Barbosa

Fica mais um pouco, amor / Que eu ainda não dancei com você / Somos quase vizinhos, fazemos o mesmo caminho, / Vamos, me dê sua mão / Quando o baile acabar, eu deixo você no seu portão.

Eu não vou pedir, mas se você quiser me dar / Aquele beijo, ao qual eu faço jus / Espero você entrar, acender e apagar a luz / Abrir a janela e me dizer: / "boa noite, zé, té manhã se deus quiser". / Tá tudo legal


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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Riscos do aprimoramento

Todos os praticantes de esportes de velocidade buscam maneiras de aprimorar a aerodinâmica: tiram pelos, usam malhas, capacetes em ponta, etc.

Daqui a pouco vão remover dos atletas a parcela menos aerodinâmica da anatomia masculina.

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

De novo, o errado melhor

Beju é melhor que beijo.

O "be", que explode de levinho, joga o "ju" em bico, num caminho só até a boca contraposta.

O "i" do beijo bota no meio uma estufamento da bochecha, que é um tropecinho no gesto.

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Mais caipira hoje

Hoje to mais caipira. Não tive escolha, morreu o Pena Branca.

Na voz (às vezes é uma) e nas vozes (às vezes são duas) dele e do irmão Xavantinho, que já foi, eu prefiro a Vaca Estrela e o Boi Fubá do Patativa do Assaré.

E por falar em estrela e caipira, não é bacana que o ovo seja estalado, já que estala, e estrelado, já que tem forma de estrela, e que estalado seja palavra parecida com estrelado, a ponto de uma parte das gentes, por um engano(?), juntar tudo num estralado?

Eh povo bão de poesia!

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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Todo santo dia?

Um leão a flechadas, ainda vá lá.

Mas as cinco hienas a dentadas não tá dando pra matar.

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Habilidades I – O chapeiro

Nas padarias, o balcão em volta da chapa fica cercado de fregueses criativos, cada um com seu sanduíche personalíssimo, e, do lado de dentro, três ou quatro atendentes esmerando-se para satisfazer sua urgência.

Ouvem o pedido e o repetem ao chapeiro.

Chapeiros não ouvem nada além das vozes dos atendentes. Ou, se ouvem e respondem a conversa de algum freguês conhecido, separam esses diálogos daqueles da chapa.

Cada pedido é dito uma única vez e memorizado na ordem de chegada. Se for esquecido, só se saberá quando o freguês estranhar a demora e pedir de novo. Caso seja freguês autêntico de padaria, pedirá com cordialidade, talvez alguma piada, pois sabe que raramente o chapeiro esquece.

O atendente não pode pedir duas vezes a mesma coisa, já que não há como diferenciar o reforço de outro pedido idêntico.

As mãos têm que ser hábeis, para a rapidez; talentosas, para o sabor; cuidadosas, para não se queimarem na chapa. E a memória, perfeita.

É linha de montagem de mãos e cachola.

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