Consta que Newton era um sujeito introspectivo, capaz de passar horas concentrado, ensimesmado. "Não sou mais inteligente do que ninguém, apenas sei pensar com calma", fala a lenda que dizia de si mesmo.
É quase certo que um britânico assim tivesse um gato, ou mais do que um, e quem tem gatos sabe como eles empurram moedas ou qualquer coisa solta só pelo prazer de vê-las cair.
E com que interesse observam a queda, em cada uma de suas fases: o escorregar na superfície, a perda do apoio, a trajetória descendente e acelerada, o barulho do choque e o quicar no chão até a parada final. E ainda gastam mais alguns segundos pra confirmar a imobilidade.
E foi assim. Não foi a maçã, mas a moeda que o bichano-laboratorista empurrou da mesa da sala que inspirou o físico. Sob a supervisão do gato.
O resto foi só equação.
.
sábado, 27 de setembro de 2008
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Crescer
Em um dia infernal, escorraçado pela tristeza do trabalho, corri pra um almoço em padaria. Como a Estrela do Butantã estava lotada, um senhor me pediu um cantinho da mesa. "Claro!".
Ele comia uma costelinha esturricada que, apertada entre o garfo e a faca, pimba pra fora do prato! "Desculpe!"
"Que nada! Eu sempre derrubo tudo. Minha mãe, quando eu era criança, me proibiu de vestir uniforme antes do café. - 'Estou cansada de lavar uniforme sujo de café com leite'... continuo o mesmo, não mudei nada".
Riu: "e nós crescemos?"
Puxa!... Isso lá é pergunta que se faça?
.
Ele comia uma costelinha esturricada que, apertada entre o garfo e a faca, pimba pra fora do prato! "Desculpe!"
"Que nada! Eu sempre derrubo tudo. Minha mãe, quando eu era criança, me proibiu de vestir uniforme antes do café. - 'Estou cansada de lavar uniforme sujo de café com leite'... continuo o mesmo, não mudei nada".
Riu: "e nós crescemos?"
Puxa!... Isso lá é pergunta que se faça?
.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Tônicas
Moleque rueiro ainda, já sofria as dores das regras da acentuação pátria.
Seu nome, Mario, constava na certidão sem o sinal da certeza da tônica. Parecia-lhe até que o gênero garantia a pronúncia, pois pouco importava se terminado com “o” ou “a”, o sexo lhe vinha pela sílaba forte, que, se no “i”, caberia à Virgem.
Mas da rua vai-se à escola e Dona Doroty - porque com “y” se não tinha mais “y” no abecedário? ele e o pai enlouqueciam com essas faltas de rigor – lhe ensinou que as paroxítonas terminadas em ditongos crescentes recebiam acento. Só depois concordaria com as regras de acentuação que garantiam relações biunívocas entre grafia e pronúncia, mas só quando aprendeu o significado de “biunívoca”.
No dia em que a adorável, mas exata, Dona Doroty ensinou a regra, ergueu o braço e mandou: “no meu nome não tem acento! o moço do cartório escreveu assim no documento”.
Três broncas imediatas: “no seu nome não há acento, que eu já ensinei o verbo haver para vocês; evite rimar fora da poesia, como em ‘acento’ e ‘documento’; e não é porque um funcionário ignorante um dia errou seu nome que para sempre você vai errar também”.
Sabia que as duas primeiras eram insignificantes, mas o efeito da terceira bronca foi devastador. Desde então, toda vez que escreve o próprio nome, oscila como o pêndulo do relógio-cuco da avó: “obedeço ao cartório ou à Dona Doroty?”
(pro pessoal do Mecânicos de Guarda-Chuva, com um abraço)
.
Seu nome, Mario, constava na certidão sem o sinal da certeza da tônica. Parecia-lhe até que o gênero garantia a pronúncia, pois pouco importava se terminado com “o” ou “a”, o sexo lhe vinha pela sílaba forte, que, se no “i”, caberia à Virgem.
Mas da rua vai-se à escola e Dona Doroty - porque com “y” se não tinha mais “y” no abecedário? ele e o pai enlouqueciam com essas faltas de rigor – lhe ensinou que as paroxítonas terminadas em ditongos crescentes recebiam acento. Só depois concordaria com as regras de acentuação que garantiam relações biunívocas entre grafia e pronúncia, mas só quando aprendeu o significado de “biunívoca”.
No dia em que a adorável, mas exata, Dona Doroty ensinou a regra, ergueu o braço e mandou: “no meu nome não tem acento! o moço do cartório escreveu assim no documento”.
Três broncas imediatas: “no seu nome não há acento, que eu já ensinei o verbo haver para vocês; evite rimar fora da poesia, como em ‘acento’ e ‘documento’; e não é porque um funcionário ignorante um dia errou seu nome que para sempre você vai errar também”.
Sabia que as duas primeiras eram insignificantes, mas o efeito da terceira bronca foi devastador. Desde então, toda vez que escreve o próprio nome, oscila como o pêndulo do relógio-cuco da avó: “obedeço ao cartório ou à Dona Doroty?”
(pro pessoal do Mecânicos de Guarda-Chuva, com um abraço)
.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Imodéstia de mestre-cuca
Definição do "Pequeno Dicionário Livre da Vida Brasileira":
COZINHEIRO - 1) pessoa que prepara, profissional ou amadoristicamente, delícias para o próprio paladar e para o dos outros; 2) pessoa meticulosa nos pormenores da sua atividade, que valoriza o processo acima do resultado; 3) pessoa imodesta.
Alguma modéstia sempre há na atitude de todos os profissionais, exceto nos da cozinha: "este prato que fiz está uma delícia", sempre dizem com olhar orgulhoso, ao levar à mesa.
Há quem diga que a vaidade é aparente e o auto-elogio se deve, na verdade, ao supremo desprendimento de atribuir aos ingredientes todo o mérito do resultado.
Sei não.
COZINHEIRO - 1) pessoa que prepara, profissional ou amadoristicamente, delícias para o próprio paladar e para o dos outros; 2) pessoa meticulosa nos pormenores da sua atividade, que valoriza o processo acima do resultado; 3) pessoa imodesta.
Alguma modéstia sempre há na atitude de todos os profissionais, exceto nos da cozinha: "este prato que fiz está uma delícia", sempre dizem com olhar orgulhoso, ao levar à mesa.
Há quem diga que a vaidade é aparente e o auto-elogio se deve, na verdade, ao supremo desprendimento de atribuir aos ingredientes todo o mérito do resultado.
Sei não.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Vergonhas
Sentimento estranho a vergonha.
Além da justa vergonha dos erros que cometemos, ela também se apresenta em situações ilógicas: na constatação de nossa fragilidade; ao sermos vítima da esperteza alheia; e, supra-sumo do culto ao sucesso, diante do testemunho, por vezes íntimo, de nossos sofrimentos pretéritos.
Meus pais foram crianças pobres e adultos um pouco menos.
Nunca se esqueceram, e acho que realimentaram, a vergonha de não terem usado sapatos, ou das antigas roupas remendadas, ou dos pratos pouco nutritivos dos primeiros anos.
Porém nunca pediram.
Mesmo para os que eventualmente saiam dessa situação mais precária, que efeito causará aos futuros adultos terem, na infância, pedido esmolas pelas ruas da cidade?
Além da justa vergonha dos erros que cometemos, ela também se apresenta em situações ilógicas: na constatação de nossa fragilidade; ao sermos vítima da esperteza alheia; e, supra-sumo do culto ao sucesso, diante do testemunho, por vezes íntimo, de nossos sofrimentos pretéritos.
Meus pais foram crianças pobres e adultos um pouco menos.
Nunca se esqueceram, e acho que realimentaram, a vergonha de não terem usado sapatos, ou das antigas roupas remendadas, ou dos pratos pouco nutritivos dos primeiros anos.
Porém nunca pediram.
Mesmo para os que eventualmente saiam dessa situação mais precária, que efeito causará aos futuros adultos terem, na infância, pedido esmolas pelas ruas da cidade?
sábado, 17 de maio de 2008
Escondidos nas supermáquinas
A televisão americana produziu e produz muitas séries interessantes. Bem escritas, divertidas, ótimos atores, ótima luz, ótimo ritmo, esse gênero da televisão deles é (dezenas de vezes) melhor do que a nossa auto-adulada produção.
Mas também existem péssimas e uma das piores era a supermáquina.
Era um carro idiota que andava sozinho ou guiado por um rapaz que não precisava de capacete, pois seu penteado esférico já cumpria a função. Como os inimigos não podiam saber se havia ou não motorista ao volante, os vidros tinham que ser escuros para quem olhava de fora.
Preta na pintura e nos vidros, a supermáquina era ridícula e implacável.
Exatamente como os carros com insulfilmes que circulam agora. Há um limite legal para a opacidade dos vidros, mas ninguém o observa e acho que ninguém multa, já que continuam completamente negros.
Pedestres nunca sabem se os motoristas (que deve haver lá dentro) os estão vendo. Os guardas do trânsito não sabem se o que guia está tagarelando no celular. A polícia nem sabe se há um passageiro amordaçado e amarrado por um seqüestro.
Não se pode mais pedir a vez, nem agradecer uma gentileza, nem perguntar um caminho, pois ninguém é idiota para falar com um carro que anda sozinho.
A única vantagem é que ninguém briga com um motorista inexistente.
Mas também existem péssimas e uma das piores era a supermáquina.
Era um carro idiota que andava sozinho ou guiado por um rapaz que não precisava de capacete, pois seu penteado esférico já cumpria a função. Como os inimigos não podiam saber se havia ou não motorista ao volante, os vidros tinham que ser escuros para quem olhava de fora.
Preta na pintura e nos vidros, a supermáquina era ridícula e implacável.
Exatamente como os carros com insulfilmes que circulam agora. Há um limite legal para a opacidade dos vidros, mas ninguém o observa e acho que ninguém multa, já que continuam completamente negros.
Pedestres nunca sabem se os motoristas (que deve haver lá dentro) os estão vendo. Os guardas do trânsito não sabem se o que guia está tagarelando no celular. A polícia nem sabe se há um passageiro amordaçado e amarrado por um seqüestro.
Não se pode mais pedir a vez, nem agradecer uma gentileza, nem perguntar um caminho, pois ninguém é idiota para falar com um carro que anda sozinho.
A única vantagem é que ninguém briga com um motorista inexistente.
Assinar:
Postagens (Atom)
