domingo, 10 de julho de 2011

Tomara

Andava com o olhar do que conhece, mas estranha.

- É aqui a Rua Maria Antonia?

- Essa mesma.

- Tem uma doceria, a "L...", nesta rua?

- Tem sim, era aqui, mudou, mas fica logo ali.

Os pés não saíram do chão, que a idade já não permitia, mas deu um pulinho, que se viu nos ombros e braços vibrados, no sorriso salivado, e nos olhos, que chisparam gula.

- Ai que bom! faz mais de quarenta anos que não venho.

Os donos não são os mesmos, "sob nova administração" se botou mais de uma vez até virar franquia, mas tomara que o doce faça justiça a tanta saudade.

.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Penas e pernas

Há um esforço pra diminuir a prisão, as penas ditas privativas de liberdade.

Como o mundo NÃO SE CONFORMA em não punir, criaram as penas privativas de direito, que servem também como substitutas da prisão preventiva.

Um dos direitos de que o safado-canalha-fdp-torpe do delinquente-indivíduo-marginal pode ser privado é o de frequentar certos lugares.

Que lugares?

"ah, bota aí bares e casas de prostituição"

"Zona, excelência?"

"Isso, mas não vai escrever zona, né?"

"Mas tem um artigo de uma lei aí que fala de lugares que incentivam a praticar os crimes"

"Pois é, na zona"

"Mas, excelência, ele é estelionatário. Não sera melhor proibir o dito de ir ao banco, à bolsa de valores ou a algumas igrejas?"

"Não me dá trabalho, escreve casa de prostituição"

"Mas ele é feio, excelência. Não arruma namorada, ainda mais com a fama que vai ter agora. Na casa da Nadir, tem a Ritinha que cobra pouco dele, parece que enrabichou."

"Não vai acabar essa ladainha?"

"Mas, excelência, se sacudindo nas coxas da Ritinha ele vai ficar mais meigo, não vai pensar em bobagem, querer enganar ninguém. O Sr. conhece as pernas da Ritinha? puxa! é a filha da Dona Ludovica."

"Da Ludovica, é? !..."

----------

PS: Um amigo me perguntou se isso aí em cima acontece.

Essa brincadeira veio de uma notícia que recebi do clipping da Associação dos Advogados:

"Em São Paulo, um homem preso sob a acusação de PORTAR UM CARTÃO DE CRÉDITO ROUBADO foi solto anteontem após assinar termo se comprometendo a não ir a bares e casas de prostituição. Réu primário, ele foi indiciado sob suspeita de receptação."

Será que roubam muito cartão de crédito na zona? Pensando bem, até pode ser: o cara joga a calça longe, o cartão cai e o delinquente pega.

.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Bem que podia ser verdade

Ouvi uma vez, parece que do Érico Veríssimo, que o sotaque tem relação com o que se come. Por isso, o nordestino, que come farinha misturada no feijão e outros líquidos, tem a fala pastosa; e o gaúcho, que come muita carne, mastiga as sílabas com firmeza.

Pode não ser verdade, mas é bonito.

Não tinha escada rolante na minha cidade. Meu pai voltou de Brasília, onde tinha ido tratar de coisas da diretoria da Associação de Ferroviários, dizendo que tinha lá um monte de gente de braços e pernas engessadas. "É que tem muita escada rolante, filho. Aquilo pára, o sujeito vai descer a pé, a força volta de repente e ele cai e quebra a perna".

.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Palavras de homem grande

Quando era menino, achava os nomes dos padrões e cores de cavalo palavras de homem grande: alasão, baio, palomino, tordilho e outros que esqueci. Menos pampa, que era palavra engraçada, meio que uma palhaçada.

Ele é malhado, o pampa. É mesmo um pouco palhaço.

.

domingo, 26 de junho de 2011

Solidários 2

O brasileiro também é solidário pra ensinar o caminho. Mesmo que não saiba. O motorista já percebeu que o inquirido está em dúvida, que o que ele disser em nada vai ajudar, mas é obrigado a ficar esperando o final das instruções cheias de “talvez” e “não sei bem”, que agravam ainda mais a hora tão perdida quanto o norte.

Há também os que sabem a direção, mas não sabem descrever. “Você vai por essa rua e entra três travessas ANTES da avenida”. Ora, se o pobre não conhece a região, como vai saber que faltam três travessas para chegar a uma avenida que também não sabe onde é?

No Rio uma referência charmosa e inútil é o aterro, palavra lindamente pronunciada pelos cariocas. “Onde fica tal rua, moço?”. “É fácil, você vai por aqui e, quando chegar no atieerro, vira na segunda rua”. O forasteiro segue a dica, mas não há única placa dizendo “você está SOBRE o aterro” e vai longe, sem que nunca apareça o tal monte de terra.

Nesse caso vale a pena: é bom prejuízo se perder numa cidade tão bonita.

.

Solidários 1

Parodiando o Nelson: “o brasileiro só é solidário na porta do carro aberta”.

Basta que a porta do automóvel esteja mal fechada, naquele estágio em que fica uma fresta, embora esteja presa, pros os outros carros perseguirem o ameaçado e os ocupantes se esgoelarem avisando, como se fosse um grande risco.

Na verdade não deve ser perigoso. É muito raro uma porta abrir, já que o movimento do carro pra frente tende a fechá-la. A menos, é claro, que você ainda seja um feliz proprietário de uma decavê.

De qualquer forma, todo mundo avisa, o descuidado agradece e a solidariedade do dia está garantida.

.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

De graça, claro

Um serviço público pode ser sustentado por impostos (destinação não específica, o bolo do Estado) ou taxa/preço público (específico para pagar esse ou aquele serviço).

De qualquer forma tudo sai do bolso das pessoas. O Estado não produz dinheiro, administra o nosso.

A manutenção das ruas, a luz que faz funcionar o semáforo, a limpeza das bocas-de-lobo e muitos outros serviços são custeados por impostos. Todos pagam, independente de ter ou não um bueiro na frente de casa ou um sinaleiro na esquina.

Os ônibus, metrô e trens que funcionam na cidade também deviam ser assim. Serviços públicos (e são públicos, no máximo concessões) sustentados por impostos de todos e não por quem usa.

Na hora do uso não haveria catraca. Claro que há sempre alguém que diga que isso incentivaria o uso excessivo do transporte público, como se fosse muito divertido passear em ônibus lotado, parado na avenida. Caso um ou outro aposentado tivesse esse hobby estranho, outro serviço público estaria sendo prestado, já que os bingos foram fechados.

O fato é que todos pagarem igualmente pelo transporte coletivo de todos seria mais justo, pois alguém mora longe PORQUE o outro mora perto.

Cobrar mais de quem mora longe é como cobrar, na conta do condomínio, uma taxa de elevador maior dos moradores dos andares mais altos - um absurdo completo.

O bilhete único foi avanço, mas ainda dá pra ir além.

O critério é simples: deve ser mantido por impostos tudo o que é condição de funcionamento da cidade.

E o transporte público é condição de funcionamento.

.