sexta-feira, 20 de maio de 2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Capucheta


Foto feita durante a remoção da favela para a construção de uma grande obra viária em São Paulo, na época em que a Avenida se chamava Águas Espraiadas, assim no plural.

As outras pipas têm papel de seda, esqueleto de varetas e cola pra todo lado. Capucheta é jornal recortado, ajeitado na forma de sela, seio onde se encaixa o vento. Furada em dois lados, a linha do tirante é presa por palitinhos. Tem rabiola. Não se pode puxar muito, que ela rasga.

É de brisa.

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terça-feira, 17 de maio de 2011

Drummond, múltiplo em um poema

Muita gente já leu Mineração do Outro (*). E escreveu. Pouco leio leitura alheia. Se você também é assim, pare aqui.

Tem, no Mineração, o último verso:

arder a salamandra em chama fria.

Diz que salamandra é bicho que não queima. Tanto que o operário que entra na caldeira quente pra consertar tem o apelido de salamandra, que também é nome de aquecedor. A vagina tem forma e consequência de chama. Carlos é gauche. Cada um que junte como quiser.

Mas os primeiros versos são meus favoritos:

Os cabelos ocultam a verdade.
Como saber, como gerir um corpo
alheio?


Vamos dizer que amante do Carlos é Vênus. Não é a Williams, que Carlos não conheceu, mas bem podia ser, se tivesse conhecido.

Os cabelos são de Vênus, ninguém há de negar. Carlos nunca teve muitos, mas, ainda que tivesse tido, os cabelos seriam de Vênus.

O "alheio?" está em verso solitário e aí começa a folia.

A primeira dúvida plantada é de quem é o "alheio?". Gerir um corpo alheio não é fácil. Gerir o corpo de Vênus quando Carlos está alheio no ato, menos ainda. Para gerir o corpo de Vênus, só estando alheio? Como são mais ricas, fico entre a segunda e terceira explicações, sem nunca me esquecer da primeira, pra estragar um pouco menos o poema.

Mas não pára(**) aí.

Ao separar o "alheio?" do corpo, a dúvida não foi só para o alheio, foi também para o corpo. No amor é grande a dificuldade de gerir o corpo do outro, mas é ainda maior a lida de gerir o próprio corpo. Só é possível, se estiver alheio?

Esse Carlos é mesmo do balacobaco.

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(*) aqui tem o poema inteiro e leitura de outro Carlos. Cuidado com a internet, tem gente que não separa o "alheio?" em verso isolado. Esses bárbaros!

(**) para combater outros bárbaros

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sexta-feira, 6 de maio de 2011

No inverno

Piquininho e magrela, mais ou menos em 1967, nadava com irmãos e primos na represa de água barrenta. Tinha muito frio, batia os dentes.

- Agora sai, cê já ta com o lábio roxo!

Mas deixava mais um pouco, que se divertia tanto. Quando saía, tremia que nem vara verde e tinha sempre uma toalha de esfregar e envolver, um banquinho no sol e uma caneca de café quente.

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sábado, 30 de abril de 2011

O cérebro e o coração

A ciência evoluiu e, com ela, a definição de morte. Morrer não é mais ter o coração parado. A morte agora é cerebral.

Trocamos o coração pelo cérebro.

E não foi só pra isso.

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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Coringa do medo de incomodar

Antes do tempo do eu-menino (que não conto quando foi), o medo de incomodar era o mínimo que os educados deviam ter. Mesmo os pequeninos. Eram muitas as antigas histórias de crianças "pidonas" e os assustadores castigos que tinham sofrido.

Sobrou um pouco desse excesso de dedos pra minha infância, tanto que, antes de aceitar uma guloseima qualquer, ainda que preparada pela tia querida, eu esperava que a oferta fosse feita três vezes.

No terceiro "pega!" ficava claro: aquele doce não ia fazer falta pro dono e quem insistia três vezes queria no duro que a gente aceitasse! Deixei de comer muito doce gostoso por desistência dos adultos mais impacientes ou mal informados das regras de etiqueta caipira.

O medo de incomodar também impedia que dormíssemos nas casas dos amigos ou que nossos pais usassem, a menos das urgências graves, o telefone do único vizinho que era conectado pela Telesp.

E vinha desse medo uma expressão deliciosa.

Mesmo depois de uma visita muito agradável à casa de um camarada, em que todos tinham trocado um caminhão de afetos e sorrisos, aquele que ia embora disparava a escusa coringa:

- Desculpa qualquer coisa.

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terça-feira, 12 de abril de 2011

Símbolos


Todo mundo já precisou escolher um desses dois botões no elevador e, em vez de fechar, abriu. Ou vice-versa.

Você esta lá naquele momento em que já se instalou pra subida, olhando pra frente, e a porta ainda não se fechou. Vê ali o amigo que corre sorrindo por ter alguém que segure a caixa pra evitar a espera e, ainda por cima, garantir a viagem no papo da manhã. "Que bom! é fulano", e, rápido, vai com o dedo pra segurar a porta. "É essa ou aquela? o triângulo pra fora abre ou fecha?". Segundos fatais. A porta não respeita a dúvida e a máquina vai, levando um e deixando outro sorriso amarelo.

Que diabo! O melhor sinal pra abrir ainda é ABRE e, pra fechar, é FECHA.

Inclusive pros analfabetos.

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