As andorinhas pousadas nos fios mantêm um espaço entre si. Um sim, um não; um sim, um não. Pra não virar bagunça, que elas já garantem com a gritaria.
Ouvi uma vez que o truque do domador não é o chicote, mas o passo para trás. Ta lá o leão achando que naquela distância não faz mal ter um sujeito vestido de forma ridícula. O almoço sem sabor dá um passo pra frente; "gruurraauurrruuuu" (tradução: "oooolha! ta muito perto!"), o rei alerta; o almoço estala o chicote e ao mesmo tempo, malandro que é, recua o passo que avançou; "rruruuuu" (trad: "não sei que barulho é esse, mas fica aí que ta bom"); e a plateia aplaude a coragem e o poder do insosso.
Tudo uma questão de distância civilizada.
Por isso a gente fica tão sem graça com um desconhecido no elevador.
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sábado, 9 de abril de 2011
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Quando se tem convicção
Na repartição tinha (havia) um senhor bom de português. Muito rigoroso, corrigia todo mundo, não por arrogância, mas por vício de décadas de magistério.
Voltando do almoxarifado, uma colega falou: - não tem mais borracha.
Ele mandou professoral: - já te falei que não é "não tem", mas "não há" que se fala.
- ah, Fulano, depois do 'tinha uma pedra no meio do caminho' do Drummond, esse uso ta mais do que autorizado, socorri a moça.
Ele olhou pra cima como quem se lembra e sentenciou: - eu nunca vi nenhuma graça nesse poema!
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PS: Há (tem) uma outra autorização pra lá de talentosa desse uso: Ou então felicidade / É brinquedo que não tem ("Boas festas" - Assis Valente)
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Voltando do almoxarifado, uma colega falou: - não tem mais borracha.
Ele mandou professoral: - já te falei que não é "não tem", mas "não há" que se fala.
- ah, Fulano, depois do 'tinha uma pedra no meio do caminho' do Drummond, esse uso ta mais do que autorizado, socorri a moça.
Ele olhou pra cima como quem se lembra e sentenciou: - eu nunca vi nenhuma graça nesse poema!
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PS: Há (tem) uma outra autorização pra lá de talentosa desse uso: Ou então felicidade / É brinquedo que não tem ("Boas festas" - Assis Valente)
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terça-feira, 29 de março de 2011
Preferências
Sempre que peço cerveja, fora do boteco, num encontro um pouco mais formal, aparece alguém para torcer o nariz e me recomendar vinho.
Aviso logo de uma vez por todas: prefiro as amargas às azedas.
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Aviso logo de uma vez por todas: prefiro as amargas às azedas.
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segunda-feira, 21 de março de 2011
Quando o entusiasmo não dura
Faz um tempo já, saiu um disco em homenagem ao Adoniran: "Dá licença de contar".
Vi nas notícias que Chico cantava. Entusiasmo! claro que é exagero, mas esse moço Buarque tem ligação direta com o coração de quem ouve música brasileira. Já o imaginei cantando, com a sensibilidade que um compositor reserva para o outro, lindamente, apesar da infinidade de opiniões contrárias:
oh oh oh oh oh, meu senhor, é uma ordem superior;
ou
procurei na central
procurei no hospital
e no xadrez
[...]
"pode apagar o fogo, mané, eu não volto mais";
ou
Eu não vou pedir, mas se você quiser me dar
Aquele beijo, ao qual eu faço jus
[...]
"boa noite, zé, té manhã se deus quiser".
Tá tudo legal
ou
"Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei:
Os homis tá cá razão
Nóis arranja outro lugar
Só se conformemo quando o Joca falou:
"Deus dá o frio conforme o cobertor"
Os três mosqueteiros da desventura de "Saudosa maloca" (*) tratados com o cuidado com que foi cantado o abandonado no baile de "Sem compromisso", do Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro! Um sonho dourado!
Mas foi entusiasmo que durou pouco. Gravou "Bom dia, tristeza", uma letra derramada e sem importância, desconectada da obra maior do Adoniran. Se era pra homenagear o Vinícius, que declinasse do convite.
Nem comprei o disco.
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(*) "Saudosa maloca" é caso raro na MPB. Tem três personagens que representam mais de meia humanidade: Mato-Grosso, que quis gritar, revolucionário; "eu", primeira pessoa, "os homis ta coa razão", legalista; e o Joca, "Deus dá o frio conforme o corbertor", a religião, o refúgio final dos desabrigados sem saída.
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Vi nas notícias que Chico cantava. Entusiasmo! claro que é exagero, mas esse moço Buarque tem ligação direta com o coração de quem ouve música brasileira. Já o imaginei cantando, com a sensibilidade que um compositor reserva para o outro, lindamente, apesar da infinidade de opiniões contrárias:
oh oh oh oh oh, meu senhor, é uma ordem superior;
ou
procurei na central
procurei no hospital
e no xadrez
[...]
"pode apagar o fogo, mané, eu não volto mais";
ou
Eu não vou pedir, mas se você quiser me dar
Aquele beijo, ao qual eu faço jus
[...]
"boa noite, zé, té manhã se deus quiser".
Tá tudo legal
ou
"Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei:
Os homis tá cá razão
Nóis arranja outro lugar
Só se conformemo quando o Joca falou:
"Deus dá o frio conforme o cobertor"
Os três mosqueteiros da desventura de "Saudosa maloca" (*) tratados com o cuidado com que foi cantado o abandonado no baile de "Sem compromisso", do Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro! Um sonho dourado!
Mas foi entusiasmo que durou pouco. Gravou "Bom dia, tristeza", uma letra derramada e sem importância, desconectada da obra maior do Adoniran. Se era pra homenagear o Vinícius, que declinasse do convite.
Nem comprei o disco.
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(*) "Saudosa maloca" é caso raro na MPB. Tem três personagens que representam mais de meia humanidade: Mato-Grosso, que quis gritar, revolucionário; "eu", primeira pessoa, "os homis ta coa razão", legalista; e o Joca, "Deus dá o frio conforme o corbertor", a religião, o refúgio final dos desabrigados sem saída.
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sábado, 19 de março de 2011
Cada projeto!

Se você é do ramo e não é de Sampa, não vai acreditar.
Temos aqui bancos de pontos de ônibus que não são horizontais, mas paralelos ao chão.
E olha que temos ladeiras!
Daí o exausto se senta, cabeça não gosta de ficar inclinada (parece que é coisa dos tais labirintos, que nos põem no prumo) e dá-lhe escoliose forçada.
Depois não sabem o porquê da nossa cara feia no fim do dia.
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sábado, 12 de março de 2011
Em outras construções
Foi ouvindo "Fly me to the moon - in other words" que me ocorreu a proposta de imitar o inglês.
Tem o pianinho do Tom e o ar na sua voz; “Francis, let’s fly”; a voz do Frank, contida pro amigo; os metais de rodar com a namorada pelo salão.
Mas tudo o que se diga é pouco. Ouça lá: clique para ouvir.
A proposta canibal vem do "Fly me".
Voe-me! Dizemos toque-me, leve-me, lave-me, beije-me. Só construímos assim para os transitivos.
Digamos "voe-me". Ou “estou tão triste hoje, durma-me”.
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Tem o pianinho do Tom e o ar na sua voz; “Francis, let’s fly”; a voz do Frank, contida pro amigo; os metais de rodar com a namorada pelo salão.
Mas tudo o que se diga é pouco. Ouça lá: clique para ouvir.
A proposta canibal vem do "Fly me".
Voe-me! Dizemos toque-me, leve-me, lave-me, beije-me. Só construímos assim para os transitivos.
Digamos "voe-me". Ou “estou tão triste hoje, durma-me”.
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quinta-feira, 10 de março de 2011
Avelãs da Ribeira
Minha avó dizia ter nascido no povoado de Avelãs da Ribeira, em Trás os Montes. Saiu de lá muito pequena e nunca voltou.
Faz muito tempo, era menino, nunca anotei, mas não me esqueci, que o nome, além de bonito, é ótimo pra se pronunciar com sotaque português (Avvlãs da Rrbaira).
Perguntei pra muitos, portugueses e viajantes, e nunca ninguém me disse conhecer.
Encontrei no google.
O povoado tem uma bela ponte em arco de pedras e mais ou menos duzentas almas, daquelas dos vivos. Das outras deve ter muito mais. A da minha avó inclusive.
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Faz muito tempo, era menino, nunca anotei, mas não me esqueci, que o nome, além de bonito, é ótimo pra se pronunciar com sotaque português (Avvlãs da Rrbaira).
Perguntei pra muitos, portugueses e viajantes, e nunca ninguém me disse conhecer.
Encontrei no google.
O povoado tem uma bela ponte em arco de pedras e mais ou menos duzentas almas, daquelas dos vivos. Das outras deve ter muito mais. A da minha avó inclusive.
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