sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Maria dos Pacotes

Na minha cidade era Maria dos Pacotes. Parece que há em outras.

Moradora de rua, eu nunca soube onde passava as noites, ou se era no mesmo lugar uma após outra. Não acreditava que fosse. Não havia por quê, pois todas suas coisas iam em trouxas nela enganchadas.

Trouxas penduradas em papel amarrado com barbante daqueles grossos, que vinham enrolados, geométricos, em tubos de papelão, e, depois do último nó, um laço grande, alça para um ou outro ombro, uma ou outra mão.

Muitas trouxas.

Passava e não nos olhava brincando na rua. Meninos rueiros. Eu pensava quais as roupas ou detalhes femininos iriam naqueles pacotes, mas não perguntava ou tentava saber.

Um dia um menino disse que viu. Talvez tenha arrancado dela uma das trouxas, talvez batido na mulher, os meninos são rudes, ou eram, talvez não o sejam mais, talvez o sejam ainda mais. Mas disse que viu e eram papéis apertados, amarrotados, inúteis.

Pasmei, na minha meninice: “então não é nada, é só peso; ela nada tem, a vantagem de nada ter é andar livre das cargas, mas a Maria dos Pacotes tem que levar algo duro de carregar”.

Hoje quero crer que fechar o pacote mudava o papel velho em rica seda. Como na cena de “A Bela e a Fera”, de Jean Cocteau, em que as roupas simples da Bela se tornam lindo vestido ao passar, carregada, pela porta do quarto.

Se era assim, quando o moleque abriu o pacote as sedas voltaram a papel? a crueldade da molecagem foi ainda mais dolorosa?

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Brasilidades e mineirices

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Somos todos um pouco mineiros e os mineiros um pouco mais.

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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Monicelli se projeta

Diz que Mario Monicelli se atirou do hospital, em Roma, aos 95.

Muito do que ri, de esguelha, devo a esse homem.

Imagine esse grande Mario, magrela, perna branca, bunda de fora daquela roupa ridícula de hospital, subindo na janela, o tubo do soro pendurado e depois o tubo sozinho, agitado no ar, e a queda, peladão, o outro tubo meio sacudido e o avental voando que nem capa de super-homem.

Não rir tragicamente disso é desrespeito ao que ele foi. Se ninguém filmar, é que a coisa ta feia.

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domingo, 28 de novembro de 2010

Gemada com Porto

Tem uns mistérios no passado de criança da gente. O duro é não ter mais pra quem perguntar.

Era quase uma obsessão dos pais que os filhos fossem fortes, mesmo que gordinhos. "Olha que magro e pálido esse menino!" e dá-lhe Biotônico Fontoura ou (melhor!) gemada.

Uma das gemadas era especial. A mãe fazia com gemas, acúcar e uma gota de vinho do Porto, aquela bebida boa, só assim provada. O resto do copo ela bebia e depois ficava com a cara rosada das festas, quando tomava mouse beer.

O Porto, onde se achava eu não sei e nem com que dinheiro se comprava, que a gente tinha pouco. Era barato? Vendia em copos no bar da esquina como os outros vinhos que eram da receita do bolo?

Só sei que a gemada era divina.

Deixava forte e um tiquinho de pileque. Pra criança talvez não funcionasse, mas pro amor devia ser boa.

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Velhas histórias



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Os que não gostam de histórias de velhos acham que viver não serve pra nada?

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(Imagem: Corilo - que já se foi - no seu sítio, em frente ao pico da testa da Serra do Quati, Vale do Jequitinhonha, continente das Minas Gerais)

Veja mais: Araçoaí

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terça-feira, 16 de novembro de 2010

A síndrome de Obelix

Ainda não está no CID 10.

O gordinho Obelix nada tem contra os romanos, mas, quando sabe que estão vindo, sorri e aplaude (aquelas mãozinhas uma contra a outra negam a tese de que quadrinho não se move). Exulta só porque vai ter peleja.

Sofremos da mesma síndrome, não somos tão poucos assim, mas estamos fora de moda.

Deem-nos uma mesa de bar, umas geladas num balde, e logo logo falamos alto, gesticulamos e defendemos com paixão o que possivelmente atacávamos na semana anterior, no bar anterior.

Deixem-nos a peleja. Evita mais enfartes do que se abster de torresmo.

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

O carunchinho da dúvida

O apelido, digamos, é Gero. Divertido, falante, de olhar sempre curioso e questionador.

- Esse país aí, o Haiti, vai ver que Deus ta castigando como fez com aquela cidade lá da Bíblia. Primeiro o terremoto e agora essa cólera matando tanta gente. E olha que na Bíblia era cidade. Agora é um país.

- E esses pais que maltratam tanto essa menina. Nesse jornal é só tristeza. Deus pode tudo, podia fazer esses dois estéreis. Mas não faz, deve ser pra exemplo pras outras pessoas.

Roa, carunchinho, roa.

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