terça-feira, 6 de outubro de 2009

A serpente


(foto: Miles Kenzo Kooren, da internet)

Estranha a atração dos fotógrafos pela serpente no momento em que vence sua presa.

Ela não é franca, não luta, mas enreda, espreme e sufoca, e, como se não bastasse tanta vileza, abre uma boca desarticulada e engole o outro vivo, sem lhe conceder a compaixão da mordida abreviadora.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mãe



A gente fere o dedo e se espanta como o esbarra muito mais do que sabia, pois agora em cada toque há uma dor.

Quando se perde alguém, a memória fica machucada e cada lembrança é um toque.

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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Atormentado anônimo

Fiz faculdade difícil. Dessas em que as provas parecem completa novidade, para as quais nunca há tempo suficiente e o professor fica lá, ao lado do pobre, que tenta rabiscar uma última bobagem, em completo desespero pelo mirrado 5.

Na porta do banheiro, um desanimado deixou o recado:

"Tudo passa. O amor passa, a vida passa, a dor passa. Até a uva passa.

Só eu que não passo nessa porra dessa escola."


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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Onde ficam as meias?

Vendo o contador ali do lado direito, instrumento bobo que contabiliza também as minhas entradas pra ver se alguém entrou, num "quanto mais ansioso, mais popular o seu blog", acho que a enquete não vai dar muito certo.

Mas vamos tentar.

Talvez por falta de gavetas nas cômodas da casa, sempre ocupadas com toalhas, lençois e outros panos grandes, excessivos que se tinha que forçar com as mãos a montanha pra baixo e empurrar a gaveta com a barriga pra fechar, as meias pretas de meu pai sempre foram ajeitadas em bolinhas na gaveta do criado-mudo.

Cresci pensando que um dos criados-mudos de todas as casas tinha a função de ser a residência das meias do homem adulto.

Força de infância, repeti o hábito nas casas em que morei depois, mas, na dos outros, parece que não é assim.

Onde ficam suas meias?

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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Xixi no banho

Tem um anúncio na televisão recomendando que se faça xixi no banho, para economizar água, em defesa do meio ambiente. Ele é muito gracioso e terá efeito nas cabeças infantis. Na minha já teve!

Quando a gente era criança, não dava descarga toda vez que ia ao banheiro. Já tínhamos esgoto e água encanada, mas a regra do "enquanto é amarelo claro, deixa aí" era resquício de uma outra época, ainda mais remota e mais penosa, das fossas que se enchiam e dos baldes puxados nos poços.

Passou o tempo e nossas mães (naquele tempo era a mãe que educava) tiveram elas mesmas que aprender que era mais fino dar descarga todas as vezes.

Agora sabemos que aquilo que pareceu limpo e educado não deu certo.

E fazer xixi no banho é mesmo bem divertido, como sugere o anúncio.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Há um lugar onde foi gol

No mundo natural foi gol.

Sabe aquele drible, só de tempo, que o Pelé deu no Mazurkiewicz, goleiro do Uruguai, na copa de 70? não lembra?, então você não gosta de futebol, mas veja lá:

Olha o drible

Então, a bola tava no caminho do maior dos gols, quando Deus, no último instante, deu-lhe um toquinho que a desviou pra fora e disse:

- Assim também já é demais! quem você pensa que é?

Lá no mundo em que não há forças superiores que se metam na vida dos mortais, foi gol.

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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Lixeiros e Olimpíadas


(foto Enerson Cleiton - da internet)

Se o mundo fosse um tiquinho mais justo, haveria uma modalidade esportiva em que o atleta correria, teria que parar, erguer um peso que se desmancha, pegar a parte que caiu no chão, jogar tudo num recipiente em movimento e correria de novo, vestido de macacão, botas e luvas grossas de couro.

Durante horas, todos os dias, sob um sol escaldante, em piso irregular e ameaçado por carros e motos passando por todo lado.

Nossos lixeiros seriam campeões olímpicos.

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