sábado, 7 de março de 2009

Perdão em excesso

O amor redime.

Está num monte de histórias escritas e filmes de amor. O cara é um crápula, começa a amar e logo tá todo mundo chorando por ele.

O maior exemplo de que me lembro é o King Kong. Por causa do grande amor e dos imensos olhos tristes do macacão, todos derramam baldes de lágrimas entre as cadeiras do cinema e maldizem a civilização que tratou tão mal o apaixonado. Nos nossos dias de preservação ambiental, a crueldade parece ainda maior.

Ninguém se lembra que, nos séculos anteriores à chegada da loira, o gorilão exigiu dos pobres nativos, todos os anos, que entregassem sua moça mais linda para comer por via oral.

Enquanto todos choravam em Nova Iorque, havia festa na aldeia.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A areia de Borges

Eu tinha escrito na postagem anterior, aí embaixo:

" Quando eu tinha quinze, desisti do rock. Acho que fiz bem, o rock envelheceu rápido e eu ia ficar na mão antes dos quarenta.

Fui pro samba! Esse sim, eterno!"


Mas acho que não é verdade. Mudei. Ficou assim:

"Quando eu tinha quinze, desisti do rock. Acho que fiz bem, o rock dizia pouco pro meu jeito de brasileiro interiorano.

A arte universal (exceto em raras e maravilhosas exceções) é como um lago de 15 centímetros de profundidade e muitos quilômetros quadrados de superfície. Um volume imenso de água.

A arte mais ligada a uma determinada cultura tem superfície muito menor, mas vai a centenas de metros de profundidade. Um volume de água bastante inferior, mas, pra quem mergulha nessas águas escuras, de infinitas possibilidades.

Fui pro samba! Este sim, da minha aldeia!"


Em blog, a gente publica e despublica, mais ou menos como em "O livro de areia" do Borges.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Ave, piratas

Quando eu tinha quinze, desisti do rock. Acho que fiz bem, o rock dizia pouco pro meu jeito de brasileiro interiorano.

A arte universal (exceto em raras e maravilhosas exceções) é como um lago de 15 centímetros de profundidade e muitos quilômetros quadrados de superfície. Um volume imenso de água.

A arte mais ligada a uma determinada cultura tem superfície muito menor, mas vai a centenas de metros de profundidade. Um volume de água bastante inferior, mas, pra quem mergulha nessas águas escuras, de infinitas possibilidades.

Fui pro samba! Este sim, da minha aldeia!

Éramos um grupo de amigos que gostava de músicas semelhantes e, meio pobres, comprávamos os vinis e emprestávamos uns aos outros pra piratarias em k7. Até hoje as tenho, quando tento ouvir quase nunca tocam, as fitas são pouco duráveis como o rock, mas não tenho coragem de jogar fora.

Uma vez um ladrão entrou em nossa casa e levou dezenas de fitas e nenhum vinil. O objetivo era claro: queria a mídia (que valia) e não seu conteúdo (que não valia nada). Uma ofensa.

Era um belo clube aquele dos piratas. Eu, que não jogava bola, tinha poucas diversões e minha mãe se alegrava muito de me ver interessado em ouvir e trocar músicas com os amigos.

Agora a pirataria mudou. Melhorou.

Agora a gente ouve uma música no carro, no caminho do trabalho, e, quando quer compartilhar, grava em MP3 e manda pralgum amigo que pode compreender o entusiasmo que a canção despertou.

E o navio pirata de vento em popa.

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Canções

O Parque da Água Branca, aqui em São Paulo, é um belo espaço que lembra sítio. Tem pavão, tem galinha (e seus pintinhos excitados), tem cavalo (e aula de equitação), tem ganso (e bicada) e tem uma casinha de pau-a-pique ou semelhante, onde se vendem cavacas e café de coador (doce como na infância), por um real.

Cavaca é uma delícia de pão, com forma de broa de milho (acho que é de milho mesmo) e recheio de passas, para quem prefere recheado. Pães são bons sem recheio, mas as passas vão bem na cavaca.

Você fica ali sentado em banquinhos de toco de árvore e uns violeiros tocam música caipira. Sabe aquela comoção? Pena não abrir de noite pra que a gente pudesse ver estrelas. Pensando bem, melhor não abrir o parque, já que o céu paulistano não abre mesmo, ou, se abre, tem partículas e luzes demais pros pobres astros que já chegam aqui cansados dos anos-luz percorridos.

Dia desses, um violeiro daqueles cantava O Menino da Porteira:

"Boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão / Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração" (*)

Mal terminou esses versos, parou, olhou pra gente e sentenciou:

- E esse boi não foi pro curral, não. Foi pro matadouro.

"E o coraaação fica aflito / bate uma a outra faia (**)"

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(*) O Menino da Porteira - Teddy Vieira e Luizinho

(**) Cuitelinho - Folclore recolhido por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó

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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A máquina educativa

O celular tem uma função pedagógica ainda não explorada: sensibilizar os jovens para a importância da falta na vida das pessoas.

Basta atentar para as situações em que ele fala e escuta: se não falta carga; se não falta sinal; e, no caso dos pré-pagos (esse hífen ficou!), se não falta crédito.

É como computador: bom quando funciona.

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sábado, 20 de dezembro de 2008

Ciência


















Ele sabe que tem olho amarelo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Cartões

Dia desses, um senhor em um banheiro público me pediu um cartão telefônico que tivesse uma ou duas ligações.

Disse-lhe que não tinha nenhum.

- Antes, quando a gente ligava com ficha, eu podia comprar só umas duas pra ligar pra casa. Era baratinho. Agora o cartão tem muitas ligações, é caro e eu tenho que ficar pedindo.

Nem tudo que parece boa idéia é bom para todos.

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